Haddad Deixa Fazenda com Economia em Alta e Impostos em Queda

Apelidado de “Taxad” pela oposição, o ministro Fernando Haddad confirmou em dezembro de 2025 que deixará o Ministério da Fazenda em fevereiro de 2026 para atuar na campanha de reeleição do presidente Lula. Ele entrega a pasta após três anos marcados pela aprovação da reforma tributária, crescimento econômico acima das expectativas, desemprego em níveis históricos e redução da carga tributária — dados que contradizem a narrativa de aumento de impostos.

A Saída Antecipada

Haddad anunciou sua decisão em dezembro, em café da manhã com jornalistas. Pela legislação eleitoral, ministros que pretendem disputar eleições precisam se afastar até 3 de abril de 2026, mas o ministro optou por antecipar a saída para fevereiro.

O motivo é dar tempo ao sucessor para preparar documentos técnicos essenciais do início do ano, como o Relatório Bimestral de Receitas e Despesas de março e o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, que deve ser enviado ao Congresso até 15 de abril.

“Manifestei o desejo de colaborar com a campanha do presidente Lula. Isso é incompatível com os requisitos da Fazenda”, afirmou Haddad. O ministro descartou ser candidato a cargos eletivos em 2026, mas disse que pretende ajudar na formulação do programa de governo e na estratégia da campanha petista.

Dario Durigan: O Provável Sucessor

O principal cotado para assumir a pasta é Dario Durigan, atual secretário-executivo do Ministério da Fazenda. Advogado de 41 anos formado pela USP e mestre pela UnB, Durigan é considerado o braço direito de Haddad e já atua como uma espécie de “CEO” da pasta, organizando fluxos de trabalho e centralizando informações.

Durigan tem longa trajetória no setor público, tendo atuado na Advocacia-Geral da União e na Casa Civil em governos petistas. Foi assessor especial de Haddad na Prefeitura de São Paulo entre 2015 e 2016, onde estreitou a relação com o ministro. Antes de retornar ao governo em 2023, trabalhou como diretor de Políticas Públicas do WhatsApp Brasil.

Haddad manifestou confiança no trabalho de Durigan: “Ele tem muito trânsito na esplanada. Eu não tenho dúvidas que essa equipe vai perseguir as metas como fizemos nesses três anos.”

A Grande Conquista: Reforma Tributária

A aprovação da reforma tributária é apontada como o principal legado de Haddad à frente da Fazenda. Após décadas de tentativas frustradas, o Congresso promulgou em dezembro de 2023 a Emenda Constitucional 132, que unifica cinco tributos federais e estaduais em um sistema semelhante ao IVA europeu.

“Depois de décadas, aprovamos uma reforma tributária. Democraticamente. Parecia impossível. Valeu lutar!”, comemorou Haddad nas redes sociais após a votação na Câmara.

A reforma simplifica um dos sistemas tributários mais complexos do mundo. Empresas brasileiras de médio porte gastavam cerca de 1.500 horas por ano apenas cumprindo obrigações fiscais, segundo o Banco Mundial — valor muito superior aos 243 horas gastos em Portugal, por exemplo.

Em dezembro de 2024, o Congresso aprovou a regulamentação da reforma sobre consumo. A reforma do Imposto de Renda, prevista inicialmente para 2024, foi adiada para 2025 devido à necessidade de novos cálculos sobre o Imposto de Renda Pessoa Jurídica.

Reforma do Imposto de Renda: Isenção e Justiça Tributária

Em novembro de 2025, o presidente Lula sancionou a lei que amplia a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, cumprindo promessa de campanha. A medida passou a valer a partir de janeiro de 2026 e representa a maior alteração na tabela do IR da história recente do Brasil.

A proposta beneficia cerca de 15 milhões de contribuintes de duas formas:

Isenção total: 10 milhões de brasileiros que ganham até R$ 5 mil por mês passaram a não pagar nada de Imposto de Renda, com desconto mensal de até R$ 312,89.

Redução proporcional: 5 milhões de contribuintes com rendimentos entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350 recebem desconto de R$ 978,62, com redução decrescente até zerar no teto de R$ 7.350.

Para compensar a perda de arrecadação, a lei institui tributação mínima de 10% sobre rendas acima de R$ 600 mil anuais (R$ 50 mil mensais), atingindo cerca de 140 mil brasileiros de alta renda. A cobrança é gradual e não afeta quem já paga essa porcentagem ou mais.

“O Brasil possui uma desigualdade pior do que a de 47 países da África. Isso tem que acabar”, afirmou Haddad durante a cerimônia de sanção. O ministro classificou a medida como o passo mais significativo no caminho da justiça tributária no Brasil.

Somando os três anos de gestão, entre 2023 e 2026 o governo Lula deu isenção total de IR para aproximadamente 20 milhões de brasileiros e redução para outros 5 milhões, totalizando cerca de 25 milhões de beneficiados.

“Taxad”: A Polêmica e os Dados Reais

Durante sua gestão, Haddad foi intensamente atacado pela oposição com o apelido de “Taxad”, em uma campanha que viralizou nas redes sociais e chegou até aos telões da Times Square em Nova York. O termo, criado principalmente por parlamentares do PL, acusava o ministro de ser um “cobrador de impostos” focado em aumentar a carga tributária sobre os brasileiros.

No entanto, os dados oficiais do Tesouro Nacional contradizem frontalmente essa narrativa. A carga tributária brasileira caiu de 33,07% do PIB em 2022 para 32,44% do PIB em 2023, uma redução de 0,64 ponto percentual. Foi o menor patamar desde 2020, excluindo o ano atípico da pandemia.

Em 2024, a carga tributária subiu para 32,32% do PIB segundo a metodologia revisada do Tesouro Nacional, um aumento de 2,06 pontos percentuais, puxado principalmente pela reoneração do ICMS sobre combustíveis pelos estados — medida estadual, não federal.

Haddad respondeu às críticas de forma direta durante audiência na Câmara: “A maior taxação que se pode fazer foi Bolsonaro ficar quatro anos sem corrigir a tabela do Imposto de Renda e sem dar R$ 1 acima da inflação para o salário mínimo. Essa é a maior taxação que se pode fazer. Agora, taxar bet, super-rico e banco, para isentar quem o Bolsonaro cobrou? Isso o senhor pode usar o apelido à vontade.”

O ministro destacou que não criou novos impostos nem aumentou alíquotas gerais, mas sim fechou brechas fiscais e taxou privilégios. Entre as medidas: tributação de offshores e fundos exclusivos (que rendeu R$ 20,7 bilhões em 2024), taxação de apostas online, impostos sobre produtos nocivos como cigarros e bebidas alcoólicas, e tributação sobre armas e munições.

O vice-presidente Geraldo Alckmin saiu em defesa de Haddad em julho de 2024: “Se pegarmos a carga tributária de 2022 para 2023, ela não aumentou. Pode até dar uma conferida, acho até que caiu.”

Indicadores Econômicos da Gestão

A gestão de Haddad registrou crescimento econômico consistente acima das expectativas iniciais do mercado:

  • 2023: PIB cresceu 2,9%
  • 2024: PIB cresceu 3,4%
  • 2025: Projeção de crescimento de 2,5%

O desemprego atingiu mínimas históricas. A taxa de desocupação fechou em 6,1% no trimestre encerrado em novembro de 2024, o menor índice desde o início da série histórica em 2012. O número de pessoas ocupadas atingiu o recorde de 103,9 milhões.

A inflação, medida pelo IPCA, encerrou 2024 em 4,87% nos 12 meses até novembro, ficando dentro do intervalo de tolerância da meta (1,5% a 4,5%), mas acima do centro de 3%.

Em janeiro de 2026, Haddad anunciou que o déficit primário de 2025 deve ficar em torno de 0,1% do PIB, cumprindo a meta fiscal pelo terceiro ano consecutivo.

O Desafio Fiscal e as Críticas

O principal ponto de tensão da gestão foi o controle das contas públicas. O pacote de corte de gastos anunciado em novembro de 2024, que prevê economia de R$ 70 bilhões em dois anos, foi considerado insuficiente por economistas e pelo mercado financeiro.

Zeina Latif, sócia-diretora da Gibraltar Consulting, avaliou que as medidas vão na direção correta mas não são suficientes para garantir a sustentabilidade da dívida pública. “À luz do quadro que a gente tem, do tamanho do desafio fiscal e da deterioração das expectativas, claro que seria necessário um pacote mais ambicioso”, afirmou.

Gabriel Fongaro, economista sênior do Julius Baer Brasil, destacou que o pacote tem efeito de médio prazo e não garante a queda da curva da dívida no longo prazo. “O governo anunciou uma revisão da regra do salário mínimo, mas é uma revisão bem modesta. Não vai ajudar muito fiscalmente nos próximos dois anos.”

A dívida pública bruta atingiu 78,6% do PIB em outubro de 2024. O governo projeta que ela continue crescendo, atingindo 81,3% em 2026 e 82,5% em 2027.

Outras Conquistas da Gestão

Além da reforma tributária, Haddad participou da finalização do acordo comercial Mercosul-União Europeia, assinado em janeiro de 2026 após décadas de negociações. O ministro atuou na avaliação dos impactos fiscais e macroeconômicos do acordo.

O ministro também liderou a taxação de apostas online (bets), fechamento de brechas fiscais em offshores e fundos exclusivos, e a aprovação da tributação mínima de 15% sobre multinacionais, em linha com as diretrizes da OCDE.

O Que Dizem os Especialistas

Alessandra Ribeiro, economista-chefe da Tendências Consultoria, avaliou positivamente o conjunto da gestão. “Lula entrega um país mais estável e previsível do que aquele que encontrou em 2022”, afirmou.

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, reconheceu o esforço de equilibrar diferentes demandas. “A equipe econômica conseguiu equilibrar prudência e compromisso social, algo raro na história recente”, disse.

No início da gestão, economistas apontavam como principal desafio endereçar a questão fiscal e definir a nova regra para as contas públicas. Bráulio Borges, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, destacou em 2022: “Um desafio de Haddad é coordenar melhor a PEC da Transição.”

Próximo Desafio: A Campanha de Lula

Haddad afirmou que pretende colaborar na formulação do programa de governo e na estratégia da campanha de reeleição de Lula, mas descartou assumir a coordenação formal da campanha, cargo que ocupou em 2018.

“Eu penso que posso colaborar de outra maneira para sua reeleição. Pretendo ajudar na campanha. Já me coloquei à disposição do presidente, do PT”, declarou em entrevista à GloboNews.

O PT pressiona para que Haddad seja candidato ao governo de São Paulo ou ao Senado em 2026, mas o ministro tem reafirmado que não pretende disputar cargos eletivos. “Não está nos meus planos ser candidato em 2026”, disse em dezembro.

Perfil: Da Academia à Política

Fernando Haddad, 62 anos, é advogado formado pela USP, onde também obteve mestrado em Economia e doutorado em Filosofia. Nascido em São Paulo em 25 de janeiro de 1963, é filho de imigrantes libaneses.

Antes de assumir cargos públicos, trabalhou como analista de investimento e consultor econômico. Sua trajetória política começou em 2001, como subsecretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão de Marta Suplicy.

Foi assessor especial do Ministério do Planejamento no primeiro ano do governo Lula (2003) e assumiu a secretaria-executiva do Ministério da Educação em 2004. De 2005 a 2012, foi ministro da Educação, período em que o Brasil registrou avanços significativos nos indicadores educacionais. Segundo o Banco Mundial, o Brasil foi o país que mais avançou em aumento de escolaridade naquele período.

Como prefeito de São Paulo (2013-2016), sua gestão foi uma das mais premiadas internacionalmente da história da cidade. Expandiu a malha cicloviária de 70 km para mais de 400 km e transformou a cidade mais endividada do país em credora líquida, obtendo o grau de investimento da agência Fitch.

Em 2018, foi candidato à presidência após o indeferimento da candidatura de Lula, perdendo no segundo turno para Jair Bolsonaro. Em 2022, tentou o governo de São Paulo, sendo derrotado por Tarcísio de Freitas.

Assumiu o Ministério da Fazenda em 1º de janeiro de 2023, no terceiro governo Lula, após herdar uma economia com déficit elevado e dívida pública em trajetória de alta.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima