Duas megaoperações da Polícia Federal se cruzam na Avenida Faria Lima: a Operação Compliance Zero, que apura fraudes do Banco Master, e a Operação Carbono Oculto, que investiga lavagem de dinheiro do PCC. O ponto de conexão são gestoras de investimentos que atuaram em ambos os esquemas, movimentando até R$ 17 bilhões em operações suspeitas. Nesta quinta-feira (15), o Banco Central decretou a liquidação da Reag, uma das principais gestoras envolvidas, um dia após a PF cumprir 42 mandados de busca na segunda fase da Compliance Zero.
O Cruzamento das Investigações
A Polícia Federal identificou que duas gestoras de fundos — Reag Investimentos e Trustee DTVM — aparecem simultaneamente em investigações sobre fraudes bilionárias do Banco Master e em apurações sobre lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ambas as empresas operavam em endereços na Avenida Faria Lima, coração financeiro de São Paulo.
Segundo documentos da PF obtidos pelo Ministério Público, as gestoras teriam sido utilizadas para “lavar recursos de origem ilícita, oriundos do Banco Master e do PCC”. A Reag administrava mais de 330 fundos, com patrimônio total superior a R$225 bilhões em agosto de 2025. A Trustee atuava como principal administradora dos fundos do Master Asset Management, braço de gestão de recursos do Banco Master.
O Banco Central enviou relatório ao Tribunal de Contas da União (TCU) e ao Ministério Público Federal detalhando que fundos administrados pela Reag estruturaram operações fraudulentas com o Banco Master entre julho de 2023 e julho de 2024. O valor total das irregularidades pode chegar a R$ 17 bilhões, segundo investigadores.
A Operação Carbono Oculto: O Esquema do PCC
Em 28 de agosto de 2025, o Ministério Público de São Paulo deflagrou a Operação Carbono Oculto, considerada a maior operação contra o crime organizado da história do país. A ação cumpriu mandados contra cerca de 350 alvos, incluindo 42 gestoras de fundos ou instituições financeiras.
A investigação revelou que o PCC controlava cerca de 40 fundos de investimentos, com patrimônio em torno de R$30 bilhões, utilizados para lavar dinheiro proveniente de esquemas no setor de combustíveis. Mil postos em dez estados movimentaram R$52 bilhões entre 2020 e 2024, a maioria para lavagem de recursos do crime organizado.
Entre as gestoras alvos da operação estavam Reag, Trustee e Banvox — todas com vínculos documentados ao Banco Master. A denúncia do MP-SP afirmou que João Carlos Mansur, fundador da Reag, era responsável por “dinâmicas fraudulentas envolvendo fundos” e estava “diretamente implicado na ocultação de valores sem origem”.
Na época, a Reag informou que apenas o fundo Hans 95 negociou CDBs do Banco Master e disse colaborar com as autoridades. A empresa foi alvo de buscas em seu escritório na Faria Lima e na casa de Mansur.
A Operação Compliance Zero: As Fraudes do Master
A Operação Compliance Zero teve sua primeira fase em novembro de 2024, resultando na prisão de Daniel Vorcaro e na liquidação do Banco Master. A segunda fase foi deflagrada em 14 de janeiro de 2026, com 42 mandados de busca em cinco estados e bloqueio de bens superiores a R$ 5,7 bilhões.
Entre os alvos dessa nova fase estão:
- Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro
- Nelson Tanure, empresário com histórico de investimentos em empresas em crise
- João Carlos Mansur, fundador da Reag
- Henrique Vorcaro, pai de Daniel, suspeito de transferir bens para dissimular ativos do Master
A PF apreendeu R$200 mil e R$97 mil em dinheiro vivo em diferentes endereços, além de carros de luxo, relógios de alto valor e armas. As ordens judiciais também atingem imóveis e participações societárias.
O Esquema: Como Funcionava a Fraude
Segundo a investigação da Procuradoria-Geral da República (PGR), o esquema funcionava em três etapas:
1. Empréstimos Fictícios: O Banco Master concedia empréstimos a empresas de fachada, muitas delas operadas por “laranjas”.
2. Aplicação em Fundos: Essas empresas aplicavam imediatamente os recursos em fundos administrados pela Reag e outras gestoras.
3. Compra de Ativos Supervalorizados: Os fundos compravam ativos de baixo ou nenhum valor real por preços inflados artificialmente.
Um caso exemplar citado pela Bloomberg e Valor Econômico: o fundo Brain Cash multiplicou seu patrimônio em 30 mil vezes em apenas 20 dias — um “milagre” financeiro sem lastro real usado para inflar artificialmente os ativos do Master.
A supervalorização chegava a 150.000% em alguns casos, segundo investigadores. Os donos dos “ativos podres” conseguiam lucros exorbitantes e, com esse dinheiro, compravam ativos de outros fundos até chegar em carteiras de pessoas ligadas ao Banco Master.
A Conexão PCC-Master na Faria Lima
Reportagem do portal ICL Notícias mapeou os endereços onde os casos se cruzam. O 11º andar da torre A do edifício Pátio Victor Malzoni, na Faria Lima, aparece em documentos oficiais como endereço vinculado ao Banco Master e à Trustee DTVM.
Maurício Quadrado, sócio da Trustee desde 2022, comandou a área de investimentos do Banco Master entre setembro de 2020 e setembro de 2024. Ele e Daniel Vorcaro fundaram juntos a Banvox Holding em julho de 2020.
No inquérito da Operação Carbono Oculto, a PF sustenta que a Banvox DTVM, sócia da holding, também administrava fundos utilizados no esquema de lavagem do PCC. A empresa está associada ao 11º andar do edifício B32 na Faria Lima, conhecido como “prédio da baleia”, igualmente relacionado à Trustee.
A Liquidação da Reag
Em 15 de janeiro de 2026, um dia após a segunda fase da Compliance Zero, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários. A decisão foi motivada por “graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional”.
O BC informou que fundos administrados pela Reag estruturaram operações fraudulentas com o Banco Master, apresentando “falhas graves de gestão de risco, crédito e liquidez”. A liquidação determina a interrupção imediata das atividades da gestora e sua retirada organizada do sistema financeiro.
Com a liquidação, ficam indisponíveis os bens dos controladores e ex-administradores da instituição. O liquidante designado é Antonio Pereira de Souza, que já trabalhou na liquidação do Banco Bamerindus.
João Carlos Mansur permaneceu como presidente do conselho de administração da Reag até outubro de 2025, após a empresa ter sido alvo da Operação Carbono Oculto. Ele é conselheiro do Palmeiras e fundador de outras empresas do setor financeiro. Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, Mansur está fora do Brasil.
O Papel da Trustee DTVM
A Trustee também foi alvo da Operação Carbono Oculto, sendo acusada de atuar na “aquisição e ocultação de bens para o grupo criminoso”. A empresa era a principal administradora dos fundos do Master Asset Management.
Em nota divulgada após a operação, a Trustee afirmou que “renunciou à administração de todos os fundos que foram alvos da operação Carbono Oculto”. Segundo a empresa, a renúncia ocorreu antes da operação “por decisão da área de compliance da Trustee DTVM por desconformidade de atualização cadastral identificada há alguns meses”.
A PF identificou que Artur Martins de Figueiredo, ex-diretor da Trustee, assumiu em setembro de 2020 o lugar de Daniel Vorcaro na direção da Banvox Holding. Conversas encontradas em seu celular revelaram contato com uma pessoa apontada como intermediária de Vorcaro.
A Posição da PGR
A Procuradoria-Geral da República afirmou ao Supremo Tribunal Federal que há “indícios consistentes” de que o Banco Master utilizou “vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação e fiscalização” para desviar bilhões de reais em benefício de seus controladores.
Em manifestação encaminhada ao ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF, a PGR descreve “um esquema complexo de gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro, estruturado por meio de fundos de investimento e empresas de fachada”.
Para a PGR, o caso revela a existência de uma organização criminosa voltada à prática de:
- Gestão fraudulenta de instituição financeira
- Indução de investidores em erro
- Uso de informação privilegiada
- Manipulação de mercado
- Lavagem de capitais
Apesar de a PF ter pedido nova prisão preventiva de Daniel Vorcaro, a PGR se manifestou contra a medida. Segundo o órgão, o empresário já está submetido a medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica e proibição de atuar no mercado financeiro.
O Dinheiro em Espécie e os Carros de Luxo
Durante as buscas da segunda fase da Compliance Zero, a PF apreendeu:
- R$ 200 mil em dinheiro vivo em um endereço
- R$ 97 mil em outro local
- Carros de luxo
- Relógios de alto valor
- Armas de fogo
- Documentos e dispositivos eletrônicos
As investigações também apuram a contratação de influenciadores digitais para atacar o Banco Central e autoridades envolvidas na liquidação do Master. Segundo apuração do jornal O Globo, agências de publicidade ofereceram até R$ 2 milhões a influenciadores para publicar vídeos favoráveis a Daniel Vorcaro, em uma estratégia chamada “Projeto DV”.
Nomes Poderosos sob Investigação
Além de Daniel Vorcaro e João Carlos Mansur, outro nome de peso aparece nas investigações: Nelson Tanure, empresário conhecido por investimentos em empresas em crise. O Banco Central identificou que recursos desviados do Master para fundos ligados à Reag tinham como destinatário final empresas de laranjas ligadas a Tanure, conforme revelou o portal UOL.
Em entrevista ao jornal O Globo, Tanure negou ter qualquer vínculo com o Master e rechaçou as suspeitas levantadas contra ele. A defesa de Daniel Vorcaro informou que o banqueiro “nega qualquer irregularidade, segue colaborando integralmente com as autoridades competentes e confia que o esclarecimento dos fatos afastará interpretações que não refletem a realidade”.
Impacto no Sistema Financeiro
Embora a Reag seja classificada pelo Banco Central no segmento de pequeno porte e baixa relevância sistêmica, representando menos de 0,001% do sistema, especialistas alertam que o fechamento expõe brechas para operações fraudulentas na regulação do mercado de capitais brasileiro.
O BC afirmou em comunicado que “continuará tomando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades nos termos de suas competências legais”. A investigação está concentrada no Supremo Tribunal Federal, por haver indícios de envolvimento de autoridades com foro privilegiado.
O ministro Dias Toffoli autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de mais de cem pessoas e empresas e o bloqueio de bens dos investigados. Na decisão, o ministro destacou que os elementos reunidos apontam para um “aparente aproveitamento sistemático de vulnerabilidades do mercado de capitais”.
O Que Dizem os Investigados
Reag Investimentos (em setembro de 2025): “Colabora integralmente com as autoridades responsáveis pela Operação Carbono Oculto e permanece confiante no regular funcionamento das instituições e da justiça. Diversos fundos mencionados na operação nunca estiveram sob sua administração ou gestão.”
Banco Master (em setembro de 2025): “O Banco Master é apenas um entre centenas de clientes da Reag, que é uma das maiores do País, não tendo qualquer participação na sua gestão, estrutura societária ou decisões internas.”
Trustee DTVM: “Renunciou à administração de todos os fundos que foram alvos da operação Carbono Oculto. A renúncia ocorreu antes mesmo da operação ser deflagrada, por decisão da área de compliance.”
Defesa de Daniel Vorcaro: “Nega qualquer irregularidade, segue colaborando integralmente com as autoridades competentes e confia que o esclarecimento dos fatos afastará interpretações que não refletem a realidade.”
Próximos Passos
As investigações seguem sob supervisão do STF. A Polícia Federal ainda deve ouvir ex-diretores do Master e do BRB (Banco de Brasília) em depoimentos antecipados por ordem de Toffoli. No Congresso Nacional, a oposição afirma já possuir o número necessário de assinaturas para a criação de uma CPI destinada a investigar o Banco Master.
O caso expõe não apenas as fraudes bilionárias de uma instituição financeira, mas também as possíveis vulnerabilidades que permitem que esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro do crime organizado penetrem no sistema financeiro formal, utilizando fundos de investimento e gestoras de fachada para ocultar a origem ilícita dos recursos.